A migração é mais do que um deslocamento geográfico. É uma experiência psíquica de desenraizamento e perda de um lugar simbólico – lugar de onde se fala e se é reconhecido.
Expatriada nos Estados Unidos, vivi e convivi com pessoas que compartilhavam comigo a experiência de ser estrangeiro, o outro estrangeiro, o diferente, aquele que não pertence pelo sotaque, pelos gestos, pela forma de ser e estar no mundo. Estrangeiros se atraem e se agrupam, especialmente os de mesma nacionalidade, em busca de pertencimento e identidade.
Com família vivendo fora do Brasil e também atendendo brasileiros em diversos lugares no mundo, continuo tendo a oportunidade de conviver com a população de brasileiros morando no exterior. Percebo a presença de temas que se repetem, carregam carga traumática e emergem de diferentes momentos do processo migratório, impactando a saúde mental de imigrantes brasileiros.
Saudade, nostalgia, luto migratório (múltiplas perdas simultâneas), choque cultural, sentimento de lealdade e de deserção, perda de referências simbólicas, ansiedade de adaptação, culpa por ter deixado pessoas no país de origem, crise de identidade cultural, sentimento de não pertencimento, isolamento social, dificuldade na construção de rede de apoio, experiências de discriminação racial e xenofobia, conflitos relacionais transnacionais, desafios familiares à distância, problemas de comunicação na língua estrangeira, insegurança quanto ao visto ou status legal.
Estes temas impactantes na vivência no exterior são aprofundados em uma clínica intercultural, de escuta culturalmente sensível, que propõe uma atenção ao atravessamento da cultura (e todo o seu imaginário) nas diversas subjetividades. Uma clínica que se debruça sobre fenômenos psíquicos relacionados à experiência de imigração.
Faço parte de uma rede multicultural de profissionais interculturais (Psi Terapia no Exterior), formada por integrantes de mais de 15 países. Nesta rede, espaço de estudo teórico e clínico e de trocas entre profissionais da psicologia, aprimoro, semanalmente, a escuta culturalmente sensível. Ela está presente na relação paciente/terapeuta no acompanhamento da transformação subjetiva que acontece no caminho entre fronteiras feito pela/o imigrante.
Viver no exterior é ter a experiência de ser estrangeiro, sentir-se estranho, fora do lugar, inadequado e inadaptado. Às vezes regredido, querendo voltar ao colo da mãe-terra, outras resistente, exposto as vivências psíquicas capazes de alterar sua forma de ser e se expressar.
A temática da migração tem infinitas camadas a serem desvendadas. A psicoterapia, individual ou de grupo, é espaço para elaboração deste processo migratório, experiência desestabilizadora e transformadora que atravessa o imigrante. O deslocamento de referências identitárias cria uma vulnerabilidade existencial que precisa ser acolhida e elaborada para a manutenção da saúde psíquica. Subestimar o impacto deste atravessamento é ficar em risco para doenças psicológicas e psiquiátricas, muitas vezes graves.
“Estrangeiro: raiva estrangulada no fundo de minha garganta, anjo negro turvando a transparência, traço opaco, insondável. Símbolo do ódio e do outro, o estrangeiro não é nem a vítima romântica de nossa preguiça habitual, nem o intruso responsável por todos os males da cidade. Nem a revelação a caminho, nem o adversário imediato a ser eliminado para pacificar o grupo. Estranhamente, o estrangeiro habita em nós: ele é a face oculta de nossa identidade, o espaço que arruína a nossa morada, o tempo em que se afundam o entendimento e a simpatia. Por reconhecê-los em nós, poupamo-nos de ter que detestá-lo em si mesmo. Sintoma que torna o “nós” precisamente problemático, talvez impossível, o estrangeiro começa quando surge a consciência de minha diferença e termina quando nos reconhecemos todos estrangeiros, rebeldes aos vínculos e às comunidades”.
Julia Kristeva em “Estrangeiros para Nós Mesmos”.
“Talvez seja a partir da subversão deste individualismo moderno, a partir do momento em que o cidadão-indivíduo cessa de se considerar unido e glorioso para descobrir as suas incoerências e os seus abismos, em suma, as suas “estranhezas”, que a questão volta a se colocar: não mais a da acolhida do estrangeiro no interior de um sistema que o anula, mas a da coabitação desses estrangeiros que todos nós reconhecemos ser”.
Julia Kristeva em “Estrangeiros para Nós Mesmos”.